segunda-feira, 13 de outubro de 2014

CONSUMISMO - DESEJO, NECESSIDADE OU DOENÇA?


Consumir: desejo ou necessidade?

Na vida, há coisas que são necessidades básicas. Sem elas não tem como viver. Por exemplo: comer, beber, vestir, dormir... é aceitável dizer também que existam outras necessidades que poderíamos chamar de secundárias, como ter um automóvel, um computador, um televisor etc. Outras coisas ainda podem ser consideradas supérfluas.

O que para uns é desprezível, sem valor e desnecessário, para outros pode se tornar uma necessidade de primeira grandeza. Mas o que é que faz das mesmas coisas objetos com valores distintos? Aí entra um elemento fundamental, que é o desejo. Sem ele, aliás não se vive. Fomos feitos seres desejosos e desejantes. Quem vive é porque assim deseja, muito embora nem sempre deseje viver tal como vive.


Seu Consumo é um meio de felicidade?  Está  incontrolável?


Efetivamente, entre os maiores desejos de todo ser humano está o de ser feliz. Como sê-lo, enfim? Certo é que não há fórmula, modelo ou padrão. A felicidade é uma busca. Nesse sentido há inúmeros caminhos. Convém ressaltar que o sistema sob o qual vivemos aponta um único caminho e recomenda que para ser feliz é preciso consumir. Assim, o desejo fica condicionado a um conjunto de necessidades que vão sendo criadas e estimuladas no público consumidor.
Consumir virou um dilema pontiagudo e uma obsessão incontrolável dos tempos modernos. Por um lado, estamos certos de que está errado que uma multidão não tenha condições para adquirir os produtos de necessidade básica. É isso se deve à contradição que dá sustentação ao capitalismo globalizado. De outra parte, há uma ordem que parece vir de todos os quadrantes do mundo e que estimula o consumo para além das necessidades.
O caso ocorrido com meu amigo parece ilustrativo para o momento. Depois de o filho pedir-lhe dinheiro de maneira insistente, o pai pergunta: “O que mesmo você está precisando? Diga-me que passarei no shoping para comprar!”
Diante da determinação do pai, o filho foi categórico: “Não sei o que preciso, mas quando eu chegar lá no shopping, saberei”. Ele tinha desejo de fazer suscitar dentro de si alguma necessidade para poder consumir a fim de, segundo a lei do mercado, ser feliz.

Tem cura? Educar os desejos é a solução?

 Se cedermos a todas as tentações do desejo, em breve não haverá mais condições reais para satisfazer as necessidades elementares de toda humanidade. Trata-se de pensar o que, quando e como estamos consumindo. Junto com isso, faz-se necessária uma educação permanente do desejo. Monitorar o desejo é uma tarefa de todos e em todos os lugares. O vírus do consumismo está dentro de nós e muito dificilmente alguém está imune a ele.
É salutar averiguar quantas coisas passam pelo nosso desejo todos os dias e que não são necessidades vitais. E, de outra parte, quantas necessidades básicas de muitos passam a ser direito negado por causa do projeto privativo de poucos. Educar o desejo é prolongado, pois muitas vezes pode ser um problema cultura o social. Pode-se educá-lo para consumir o que o mercado nos vende como necessidade e como produto de felicidade. Desejar para além do desejo do consumo, ou seja, pretender um novo paradigma, como ética, justiça e responsabilidade é o grande desafio.
 Se não reeducarmos nossos desejos e orientações pessoais e sociais, não teremos mais possibilidade de viver juntos por muito tempo. O nosso dilema se mostra cada vez mais sério: preservar ou continuar dilapidando os recursos naturais e a casa comum? Como seres coletivos que somos, temos o direito de consumir segundo as nossas necessidades, mas não podemos transformar todos os desejos emergentes em necessidades!

Você é um consumista para ter Reconhecimento Social?

O consumo é uma forma de reconhecimento. Não é a questão ética ou as relações humanas que valem mais. O que a pessoa porta ,como imagem, é o que vale mais, do ponto de vista das relações sociais de hoje. O não- consumismo é como uma não-cidadania. O consumismo começa e termina na adolescência.  A adolescência está nesse percurso de formação de identidade, que faz com que a pessoa busque referências para poder se colocar diferentemente dos outros, mas, ao mesmo tempo,incluído perante os outros. A mídia, os produtos, oferecem ganchos para poder se colocar socialmente. As marcas, os hábitos, os esportes, o tipo físico dizem respeito a encontrar algumas categorias, algumas formas de estar no mundo. Se pensarmos nas propagandas, os que aparecem, de modo geral, são os jovens. É o público que tem mais adesão para esse tipo de produto.
A médio prazo, as pessoas estão desgastando, do ponto de vista psicológico, sofrendo com esse empenho tão grande em relação ao consumo. E pagam um preço alto por serem consumistas. Mas muitas delas se satisfazem com esse tipo de vida; há um ganho imediato bastante claro. As pessoas se apropriam dos produtos, pois eles contemplam, pelo menos em um primeiro momento, uma certa satisfação. Só que isso é fugaz, dura um tempo bastante curto que não dá conta da vida da pessoa. É o ato repetitivo de estar comprando. Assim que o objeto é adquirido, já queremos outro. Isso se dá pela sensação de que uma vez conquistado, já é preciso ter outro para se ter a mesma satisfação Posicionamento
O consumo não valoriza essencialmente o sujeito; a questão é como Ele lida com o consumo. Nesse sentido, lembramos que uma das grandes saídas para as pessoas enfrentarem uma frustração, ou um isolamento social, é o consumo. O problema que se vê nisso é ter o consumo como a principal saída. Há uma série de infelicidades e contradições que o sujeito encontra. Na verdade, a vida tem seus enigmas, e lida com eles talvez seja mais interessante do que minimiza-los ou negligenciá-los.
Não devemos nos defender dessa lógica consumista, mas reconhece-la e nos posicionarmos em relação a ela. A saída, então, é ser um pouco mais responsável em relação a isso. Não tornar essa angústia( que é do dia-dia, de que a gente ter certeza em relação à vida, ao trabalho, aos afetos) em algo que tem que ser esvaziado a qualquer custo.Podemos usá-la como uma oportunidade de repensar a própria vida, resolver isso de outra maneira, participar mais da resolução de suas próprias questões.
O interessante é buscar novas formas de relação social que não sejam somente através do juízo que se faz uns dos outros em relação à aquisição de mercadorias, à capacidade de se identificar através delas. É muito claro o quanto nós podemos fazer algumas separações entre as pessoas só pela imagem. E isso é completamente ilusório.
Então, se pudermos nos aventurar mais no contato com os outros, não priorizando os valores externos, será mais interessante. Valorizar o laço ao invés de buscar, através de produtos, reconhecer se as pessoas valem a pena.
Muitos casamentos são desfeitos por causa de mal, que a sociedade contemporânea diz ser necessário!

Consumismo é uma questão cultural, mas pode deixar Você doente!

A sociedade nem sempre se relacionou com os bens, com os produtos, da mesma forma como se relaciona hoje. Se pensarmos que a maior parte dos eletrodomésticos e eletrônicos chegou até nós a partir da década de 1940, vemos que é algo muito recente.
As pessoas hoje têm uma infinidade de opções para uma parcela da população. Isso nos leva a pensar que o consumo é uma questão cultural por dois fatores: um aspecto histórico, pois é algo recente; e um aspecto social, porque nem todos partilham dessa mesma experiência, nem todos têm essa diversidade de opções para poder consumir.
A idéia que se têm é que consumir é algo vital, necessário. Poder ascender profissionalmente é exatamente poder mudar seu poder aquisitivo. As pessoas, de maneira geral, não se colocam nessa perspectiva crítica em relação ao consumo. Muito pelo contrário, na maior parte das vezes, inclusive, investem uma certa dedicação, esforço, para poder chegar mais perto da possibilidade de consumir.



                             Jose Valter Rodrigues Lima
Psicanalista Clinico e Mestre Psicanalise Aplicada à Saúde e a Educação